Derivado do latim "cor" e do grego "cardia", acredita-se que originalmente venha do termo sânscrito "hrid", que significa saltador. Entre os ianomâmis, ele se chama "tikytiky-mu", uma referência sonora ao ritmo.
Reverenciado desde a Antiguidade, o órgão adquiriu uma forma para poetas e outra para os cardiologistas. Por volta do século 5 a.C., começa na Grécia Antiga um debate palpitante sobre a localização da alma. Os gregos não concebem algo espiritual sem assinalar um lugar no corpo. Hipócrates, o mais famoso médico da Antiguidade, diz que a inteligência se encontra na cabeça. Platão discorda. Para ele, a alma imortal está na cabeça, mas a alma mortal, responsável pela inteligência e os sentimentos, está no coração. Os desejos sensuais, por sua vez, procedem do fígado. Aristóteles contradiz essa separação. Só existe uma alma, afirma, e ela se encontra no coração, o centro do ser humano, o fogo interno que dá calor e vida. Fica assim estabelecida pelos séculos seguintes a primazia do coração. Alguma dúvida? Nenhuma dizem os enamorados que rabiscam coraçõezinhos apaixonados tendo ao centro o nome do(a) amado(a). Com eles concordam os cristãos, para quem o coração é o símbolo da bondade e da caridade, e os poetas e escritores românticos, encarregados de dissecar em suas obras os estados emocionais do coração.
Hoje se diz que um coração pode ser mole ou de pedra. Estar leve ou pesado. Pode bater descompassado ou até quebrar. Dói na despedida e pula quando algo bom aconte-ce. Pode ser representado em objetos, jóias, propagandas, biscoitos, utensílios, slogans e roupas íntimas. Serviu de ícone do movimento hippie nos anos 60. É o símbolo do Dia dos Namorados comemorado em 12 de junho, no Brasil. Só não dá para entender como a imagem cultuada virou sinônima daquele órgão de 12 centímetros de altura por 8 de largura, 300 gramas de peso, com formato de um punho, situado no meio do peito e tão querido pelos cardiologistas. "O formato anatômico ficou desprendido do sentido", afirma Ivan Santo Barbosa, professor de semiótica da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Desde o começo, o coração estimula a imaginação, influi nos sistemas filosóficos e motiva metáforas e representações. Os sacerdotes astecas, por exemplo, costumavam arrancá-lo do peito dos inimigos vivos para oferecê-lo aos deuses, conforme está ilustrado em um templo de Chichén Itzá, no México.
Os egípcios representavam o órgão como um escaravelho esculpido colocado nos sarcófagos. O órgão original, depois da morte, era pesado em uma balança. Se o morto fosse um homem de bem, o coração estaria leve e ele seria levado para junto dos deuses. Caso contrário, seu lugar era no mundo das trevas, como é mostrado em um papiro do Livro dos Mortos que apresenta, provavelmente, a primeira representação gráfica do coração. O coração assumiu um papel primordial entre as culturas por ser o único órgão que se pode ouvir e sentir pulsar.
Quando alguém passa por fortes emoções, o coração dispara e isso é possível ser percebido por qualquer pessoa. Os batimentos cardíacos são sinais de vida. Serviram mesmo para caracterizar o órgão*.
*SCHEINBERG, Gabriela. Coração: o símbolo do amor. Disponível em http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT6244682989,00.html . Acessado em 27 de março de 2008.

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