domingo, 13 de dezembro de 2015

CAPÍTULO II

O CORAÇÃO E O SIMBOLISMO DO AMOR

“O coração é o símbolo daquilo que não pode ser controlado nem pelo intelecto nem pela vontade”. (QUILICI: 2008)

O coração humano bate 40 milhões de vezes por ano e cerca de três bilhões de vezes no decorrer de uma vida. Numa pessoa que tenha uma vida média, o coração bombeia 5 milhões de litros de sangue para o corpo. Para se ter uma idéia do que isso significa, podemos imaginar o seguinte: Se pegarmos uma mangueira dessas que se usa para aguar jardins, ela poderia, com esse volume de líquido, dar uma volta em torno da terra.

Esse órgão que pesa em torno de 300 gramas é, desde a Antiguidade remota, percebido como sendo ligado às situações de cunho emocional. Mas não é à toa que essa associação foi feita. É que sempre que estamos dominados por uma emoção forte, nosso batimentos cardíacos se alteram. O prazer e o amor podem acelerar violentamente os batimentos cardíacos a ponto de podermos ouvir nosso coração, é como se ele vibrasse em todo o nosso corpo. Lembro-me que quando era adolescente era moda entre os garotos dizerem: "Meu coração não bate pela fulana, capota". A angústia também dá um sentimento de vazio no peito, que é onde se aloja o coração. Provavelmente foi essa relação entre as emoções e os batimentos cardíacos ou o vazio da angústia que fizeram com que o homem estabelecesse desde muito cedo o coração como símbolo das emoções. Na Antiguidade acreditava-se que o ouro era o único metal capaz de ligar dois corações. Daí o surgimento das alianças. Observa-se que o coração, um órgão nobre está associado a um sentimento nobre e também a um metal nobre. Talvez houvesse já uma noção inconsciente da anatomia do coração, pois, o coração é formado por duas câmaras que emitem um som duplo. O desenho que popularmente se faz do coração, representam duas partes unidas. É assim, um símbolo de união. Numa declaração de amor diz-se: "Você está aqui no meu coração". No dia das mães e no dias dos namorados, utiliza-se o coração como símbolo que significa a união. É também o símbolo do acolhimento. Há no Brasil um dito popular que expressa bem isso: "Tal coisa é que nem coração de mãe, sempre cabe mais um".

"As horas esperam, as estrelas vigiam, o vento se aquieta e o silêncio pesa em meu coração”.
(Tagore, A colheita)

Sempre que se fala dos sentimentos utilizando o coração como referência, fala-se de algo que se deseja extravasar, um sentimento que parte do íntimo do ser. É comum as pessoas dizerem: "Estou dizendo isso do fundo do meu coração". Através do coração expressamos o medo ("Estou com o coração pequenino"), a frustração ("Estou com o coração quebrado"), o carinho ("o filhinho do meu coração") e o amor ("Você mora bem aqui, do lado esquerdo"). O coração é o símbolo daquilo que não pode ser controlado nem pelo intelecto nem pela vontade, é o símbolo das emoções. Da mesma forma que o câncer está relacionado à impossibilidade de compreender o amor, o coração é o símbolo do amor perfeito e daí sabe-se que o coração é o único órgão que não é vitimado pelo câncer.

É pelo coração que passa o sangue, o fluído da vida. O coração está no centro do corpo e no sentido simbólico esta no centro do desejo humano: o amor. É um órgão de grande importância funcional, é autônomo e, simbolicamente, significa a generosidade do amor, a única emoção que tem a capacidade de curar, unir e transformar. As pessoas que "tem um grande coração" são aquelas que disponíveis, entregam-se generosamente aos demais. Dividem, assistem e amparam. Mas há os que "não ouvem seu coração" e controlam-se. São aqueles indivíduos que não podem ser perturbados por sentimentos e emoções, odeiam "extravagâncias emocionais". Inibem a expressão das emoções e estas, se somatizam e então o coração começa a apresentar problemas. Temos também um terceiro tipo: o de "coração mole", para quem não há limites e para quem a entrega é irrestrita. São aqueles para quem os astutos e mal intencionados dirigem seus apelos. Este também é um tipo problemático.

O cardíaco é um sujeito que deve observar a desarmonia entre seu "coração" e seu intelecto. Será que é uma pessoa que reconhece seus sentimentos? Dá a eles algum espa-ço? Tem coragem para demonstrá-los? Normalmente depois de um enfarto é que esses aspectos de um cardíaco aparecem. Lembro-me que no tempo em que trabalhei com pacientes de um hospital público de São Paulo, esporadicamente deparava-me com os recém enfartados. Utilizava-se de sua condição para evitar todos os sentimentos e muitos desenvolviam impotência sexual por que temiam que a "entrega" fosse mortal. Era tudo o que precisavam: algo que os ajudasse a legitimar justamente o que os havia levado ao enfarto. Tudo o que eu dizia a eles era: "Se você quer ter outro enfarte, continue assim, negando o que sente, evitando perceber a única coisa que vale à pena na vida: as suas emoções". O enfartado é alguém que dá um valor excessivo aos seus próprios desejos e ao ego e acaba por ficar fora do movimento da vida. 

Os colapsos cardíacos podem ser descritos como um acúmulo de raiva, todos os urros que o sujeito não conseguiu dar durante sua vida, acontecem num único instante. Um bate estaca direto no coração, "Pow!" Teve que segurá-los, ficar com eles parados na garganta. Assim é o cardíaco, alguém que fica com as coisas atravessadas na garganta. Alguém que não consegue amar de "todo o coração" é apenas alguém que fica "por perto", participando sem entusiasmo ou envolvimento real. Como se diz em linguagem popular: "Está sempre em cima do muro".

Pessoas em quem a pressão sanguínea é baixa são aquelas que tem dificuldades de superar os limites que a vida lhes impõe. Para ser franco, nem tentam enfrentá-los, ape-nas se retraem. É o tipo que fica fuçando no mundo da fantasia só para não ter que lidar com a realidade e os problemas dela provenientes. Daí serem pessoas que não suportam nada, nem ninguém, nem mesmo a sexualidade tem grande importância em sua vida. Gostam da cama, mas para ficarem desmaiados, embalando sonhos.


A pressão alta tem mecanismo semelhante. Há uma curiosidade: Quando um paci-ente vai ao médico, tem que se considerar que a medida de pressão pode estar alterada por causa da consulta. Há uma experiência que demonstra que, se um indivíduo pensar numa atividade física, sua pressão pode subir, assim como seu pulso, mesmo que esse indivíduo não mova um único músculo. Isso é extremamente importante do ponto de vista que queremos tratar aqui. Se o indivíduo tem raiva e não consegue expressá-la, ver-balizá-la isso pode fazer-lhe muito mal. Sabe-se que as coisas que ficam pela garganta, geram pensamentos de raiva, fantasias de vingança e ruminações. Isso pode, a exemplo do que acontece com o pensamento sobre o exercício físico, deixar a pressão alta. A pres-são que se eleva diante de uma situação de conflito, abaixa quando a pessoa pode "desa-bafar", expressar o que sente. O hipertenso é um sujeito que está sempre em conflito e nunca consegue falar sobre isso. Normalmente esse tipo de paciente está sempre se refu-giando em atividades que os ajudem a enganar-se e aos outros, sobre sua dificuldade de enfrentar conflitos.

Há um estudo feito na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos que mostra que o candidato ao infarto é sempre um sujeito com tendências a realizar coisas demais em muito pouco tempo (uma característica dos hipertensos). Parecem liberar a hostilidade através das atividades. São pessoas que se irritam por motivos tolos, exibem sinais de conflitos com relação às outras pessoas e também contra o tempo. A pressão alta é bastante ameaçadora para o infarto. A repressão da energia agressiva é descarregada através de um infarto. Uma vez vi um cartaz sobre prevenção de infarto, onde havia um coração rachado. Nada mais correto, pois, só os corações duros é que se quebram.

Já tive experiências curiosas com pacientes hipertensos. Lembro-me de uma mulher de 46 anos, que tinha um sério problema de hipertensão. Nenhum remédio para controlar a pressão funcionava por mais de um mês (se é que chegasse aí). Ela conhecia todas as marcas de anti hipertensivos disponíveis no mercado. Aos poucos notei que evitava falar sobre seu casamento em suas sessões. Tinha pavor de tocar nesse assunto. Tratei de respeitar isso e tomei todas as providências para ajudá-la. Tinha se casado com um homem 20 anos mais velho que não conseguia manifestar-se afetivamente. Não discutia nenhum dos problemas domésticos com ela e tratava-a como se fosse uma garotinha irresponsável. Isso fez com que ficasse desvalorizada e odiasse o esposo. Tinha medo de falar dessa raiva compactada dentro dela. Assim ficou por vinte anos. Ela parecia querer esconder de si mesma aquela situação por que era completamente dependente do marido e sabia que com suas habilidades e idade, não poderia garantir um padrão de vida semelhante ao que possuía. Percebi que precisava primeiro ajudá-la a restaurar a auto-estima e adquirir alguma habilidade. Logo ela se descobriu uma pro-fissional de estética muito talentosa e requisitada. Começou a trabalhar e então, a partir daí, pôde falar de suas frustrações e raiva do marido. "Curiosamente" acertou-se com um dos remédios que já havia tomado apesar de sua pressão ter voltado aos 12X8.

Observa-se que na pressão alta existe agressividade reprimida e a animosidade fica apenas na imaginação de forma que a energia gerada não é descarregada através do de-sabafo ou de uma ação. Nota-se que tanto os indivíduos que tem pressão alta como os que tem pressão baixa, utilizam-se de mecanismos semelhantes de ação: ambos fogem de seus problemas, evitam-nos. Talvez essas pessoas devessem procurar ajuda, pois, adotaram um ritmo rígido do qual não conseguem escapar. Carregam uma carga de explosivos bastante perigosa para si mesmos. Talvez precisem escutar um pouquinho mais esse fantástico e maravilhoso coração simbólico: sua emoções.

O ser humano prima por uma incoerência: a negação de suas emoções. Tem-se a i-lusão de que as "raivas" podem ser esquecidas, as tristezas enterradas e os erros jogados para baixo do tapete. É como eu disse, ilusão. Nada que não é resolvido se dissipa, desa-parece. Fica tudo lá, na mente, criando químicas indesejáveis e prejudiciais. Será que as emoções do homem são uma aberração, um apêndice desnecessário ou estão aí com al-guma finalidade? Nada no corpo é inútil ou existe sem finalidade. Como é que alguém pode viver negando o que tem de melhor e de mais importante? Não são as emoções nossa bússola para navegar na vida? Conhecê-las não nos ajuda a saber o que queremos e o que não queremos? Acho que ao permitirmo-nos o contato com nossas emoções podemos inclusive, construir intuições. Do meu ponto de vista a intuição nada mais é que uma síntese de sentimentos e vivências do passado, condensados numa sensação. Nosso inconsciente libera essa sensação (o que chamamos de intuição) quando existe uma similaridade entre uma possível experiência atual e outra do passado.


A negação das emoções ou, o fato de evitarmos "ouvir nosso coração" pode, como sabemos, se transformar num desastre que algumas vezes atinge proporções irreparáveis: a morte . Esse símbolo que é até hoje representado por uma seta trespassando um coração, surgiu na Índia há cerca de 6.000 anos. Lá encontramos a figura de um jovem lançando uma seta nos corações de Shiva (deus Masculino) e de Shakti (deusa do Amor). Este mesmo símbolo renasceu na Grécia 4.000 anos depois, com o nome de Cupido, que atravessou os séculos chegando até nós, caracterizando o coração como a "sede do amor". Nos troncos de árvores, nos cadernos juvenis, nos cartões postais continua presente o coração trespassado por uma seta, indicando que ainda o consideramos a sede do amor.

Se excursionarmos em outras civilizações, vamos ver que a tradição do sacrifício do coração era comum nos rituais religiosos entre os habitantes do México e da América Central.


Para que o deus Quetzolcoatl — o deus Sol — pudesse vencer sua batalha diária contra a Lua e as 400 estrelas, sobrepujando a escuridão, tinha de ser alimentado continuamente com a comida mais sagrada: o coração e o sangue humano. A abertura do tórax com um golpe rápido e preciso com uma faca de pedra, para a retirada do coração ainda pulsando e banhado de sangue, era o ponto culminante do ritual que se repetia todas as vezes que abatiam fenômenos colocando os astecas em risco, tais como terremotos e tempestades.

A fusão do significado simbólico com os padecimentos provocados pelas doenças do coração era inevitável.

 Alimentada por mitos, cultos religiosos, símbolos afetivos, incluindo o que temos de mais importante na vida — o amor, a fé, a própria sobrevivência — não há porque estranhar a estreita relação entre os distúrbios emocionais e as doenças cardíacas (Groddeck, 1969; Landy, 1977; Helman, 1981). Se tomarmos a clássica figura do Atlas de Netter (1987), que procurou caracterizar o caráter constritivo da dor isquêmica, e a compararmos com o gesto do homem que sente no coração a dor da separação, na tela de Munch, de 1896, exatamente com o título de "A Separação", podemos ver como são semelhantes os gestos e, talvez, o próprio sofrimento. Um provocado por isquemia miocárdica e outro pela perda da amada.

De uma maneira muito clara compreendi o significado simbólico do coração na mi-nha prática médica. Quando um paciente portador de bloqueio atrioventricular total de etiologia chagásica voltou ao meu consultório dois meses após o implante de um marca-passo artificial, dizendo "Doutor, quero que retire este aparelho porque não estou aguentando a dor de viver com o coração amarrado!" Percebendo que suas palavras traduziam um verdadeiro sofrimento e na tentativa de compreendê-lo melhor, dei-lhe uma caneta e uma folha de papel e pedi que me mostrasse em um desenho como sentia o seu coração.

Sem titubear, delineou o coração simbólico, com um relógio ao lado, do qual tirou um "fio" que foi "enrolando" no coração. Logo a seguir, pedi ao cirurgião que realizou o implante do marca-passo para me mostrar como explicava tal procedimento ao paciente. De uma maneira rápida e objetiva o colega fez um círculo, um gerador de estímulos, do qual nascia um fio cuja ponta (em forma de seta) ia se fixar dentro de uma cavidade (o coração). E explicava: "O marca-passo é um aparelho muito simples. Tem um gerador do tamanho de um relógio. Dele sai um fio que vai até o coração, onde dá um pequeno cho-que, fazendo o coração bater certinho".


O paciente partiu daquele inocente esquema e o interpretou culturalmente, trans-formando o gerador em um relógio de verdade — que marca o passar do tempo, ou seja, a vida. O círculo que representava a cavidade ventricular tomou a forma do coração sim-bólico e o fio mudou o trajeto, simples na explicação do cirurgião, mas que na compreensão do paciente, passou a ser um arame que envolvia (amarrava!) o coração.

Compreendi claramente o sofrimento do paciente e mais ainda o lado humano da medicina.

A melhor síntese que conheço da fusão do coração anatômico com seu significado simbólico é o bico-de-pena colorido de Michael Graf. Como se pode ver em um coração anatomicamente bem feito, ele incluiu, além de relógios e manômetros indicadores dos fenômenos rítmicos e pressóricos, um homem e uma mulher, rostos humanos, flores, borboletas, sol, víboras e um sem número, de figuras abstratas. Tudo isso em um cenário surrealista a representar coisas reais e imaginárias, realidades e sonhos, tal como a vida de todos nós. As doenças do coração também despertam medos, fantasias, desfazem so-nhos, modificam a vida interior de quem as sofre.


Na verdade, o paciente é tudo isso na prática de todos os médicos. Se estivermos a-tentos a todos estes aspectos, nosso trabalho vai adquirindo características que recolocam nossa profissão no lugar de honra que sempre teve no coração de nossos pacientes.


QUILICI, Mário L. As Origens do Símbolo do Amor. Disponível em . Acessado em 20 de março de 2008.

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