O CORAÇÃO COMO SÍMBOLO RELIGIOSO
Se buscarmos a vertente religiosa, componente importante do inconsciente coletivo de todos os povos, vamos encontrar na Idade Média, entre os anos 1100 e 1250, o surgi-mento do culto ao coração de Jesus e de Maria, transferindo para este órgão o "local onde nasce e vive a fé em Deus".
Como se vê na figura nascida no ano 1100 e preservada no Mosteiro da Visitação em Turim, na Itália, a interpretação católica juntou ao coração, em sua forma simbólica, a coroa de espinhos que o circunda, as lanças que o trespassam, a cruz que emerge dele e as chamas da fé em Jesus Cristo.
Na mesma linha, o coração de Maria, mãe de Cristo, começou a ser venerado, no século XVII, através de São José Eudes. Mas, em vez da coroa de espinhos, passou a circundar o coração de Maria uma coroa de rosas.
Na cultura cristã medieval a coroa de espinhos retrata o mito do herói sacrificado, lembrando a humilhação, o martírio e a crucificação, enquanto a coroa de rosas simboliza a pureza e a aceitação (Ramos, 1993).
Estes símbolos permanecem até hoje. Em muitas casas costuma-se ter na parede principal da sala de jantar, ao lado da Santa Ceia, as imagens do Sagrado Coração de Jesus e do Sagrado Coração de Maria.
Fato interessante, muito significativo do ponto de vista do simbolismo do coração, é o ex-voto, datado de 1770, que se encontra na igreja de Lichtental, na Alemanha. Pode-se ver nele não apenas a forma simbólica, mas o coração anatômico com a aorta pulmonar e a árvore coronária perfeitamente representadas.
O coração representava o amor, a amizade, a inteligência e o valor. Na bíblia judaica, a Torá, a palavra coração aparece 190 vezes. O Alcorão, escrituras sagradas dos islâmicos, cita a "inteligência do coração" como sendo a combinação do amor e da inteligência. Com os cristãos, o símbolo ganha novas dimensões cujo apogeu coincide com o culto do Sagrado Coração de Jesus. Entre as muitas histórias que correram na época, destaca-se a de Santa Teresa de Ávila, no século 16. Quando jovem, ela teve a visão de um anjo que atravessava seu coração com uma flecha de ouro ardendo. Santa Teresa morreu muito mais tarde em um convento, mas seu coração foi conservado em uma urna de cristal e de pedras preciosas.
Santo Agostinho pregou o primeiro e usou o coração como símbolo desse sentimento, por estar associado à sede da alma, o que evoca o que há de mais sagrado na religião. "Santo Agostinho difundiu a idéia de que o símbolo do amor exclui o sexo e prioriza a alma", explica Edgard Leite, professor de história das religiões da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
Mas o amor profano, dos enamorados, também evocou o coração nos romances de cavalaria, nas trovas medievais e, muito mais tarde, na literatura romântica. "O coração tem razões que a própria razão desconhece", insistia o francês Blaise Pascal (1623-1662), matemático convertido ao jansenismo.




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